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Por que livros infantis que ensinam diversidade são mais importantes do que nunca?

Quando você pensa na sua infância, do que você se lembra? Para muitas pessoas são aqueles momentos aconchegantes, juntos aos pais ou avós, enquanto eles liam histórias.

 

Imagem original do livro “Peter and Wendy”

As histórias de ninar não são apenas finais felizes para o dia ou uma maneira de induzir o sono, mas também são uma forma segura de experimentar e discutir todos os tipos de sentimentos e situações. Então, mesmo quando as crianças pensam que estão apenas ouvindo as aventuras de um adorável coelhinho, elas estão, na verdade, aprendendo sobre o mundo ao redor delas.

Sabemos que os livros infantis podem servir tanto como espelhos quanto janelas do mundo. Espelhos que podem refletir sobre a vida das próprias crianças e janelas que dão a chance de aprender sobre a vida de outras pessoas. Também sabemos que essa autorreflexão e a oportunidade de ler e ouvir sobre realidades diferentes são essenciais para os jovens.

Ilustração de Michael Hague para “The Wizard of Oz”.

Pesquisas sobre preconceito mostram que o contato com pessoas diversas as assim chamadas de “outros” — ajuda a reduzir estereótipos. Isso porque quando vemos pessoas que inicialmente parecem diferentes, aprendemos sobre elas e nos aproximamos através de suas histórias. O “outro” se torna menos distante e, bem, menos o “outro”.

Mesmo que conhecer diretamente pessoas de diferentes origens seja o ideal para as crianças,  se isso não for possível, os livros podem servir como uma introdução para o mundo exterior.

 

Representando o mundo

Apesar de sabermos como é importante que a diversidade seja representada no nosso dia a dia, muitos livros infantis ainda estão repletos de personagens masculinos, brancos, heterossexuais, fisicamente capazes, cisgêneros e nominalmente cristãos. Pesquisas sugerem que mais de 80% dos personagens nos livros infantis são brancos, o que claramente não reflete a realidade do mundo.

Por todas essas razões é que o movimento We Need Diverse Books (Precisamos de Livros Diversificados) foi criado em 2014, decorrente de uma discussão entre as autoras de livros infantis Ellen Oh e Malinda Lo. A iniciativa visa a criação de mais livros infantis diversificados e a disponibilização dessas obras para os jovens. E, embora precisemos de pessoas para escrevê-los, também necessitamos de editoras para publicá-los e livrarias, bibliotecas e escolas para disponibilizá-los.

Como alguém que pesquisa literatura infantil, acredito que teríamos menos conflitos no mundo se todos lêssemos livros diversificados e tivéssemos vidas mais diversas.

Penso que se tivéssemos livros infantis assim, com uma ampla gama de personagens em diferentes ações e situações, bem como modelos mais diversos e representatividade na mídia, os jovens se sentiriam empoderados e acreditariam que, quando adultos, poderiam ser quem desejassem e fazer o que quisessem. Eles olhariam para seus amigos e pensariam o mesmo deles. Cresceriam respeitando e valorizando o talento de todos.

Com essa mentalidade, questões como raça e religião não teriam sequer um papel subconsciente. E isso significaria que em uma geração ou duas, não leríamos artigos com estatísticas espantosas e desanimadoras e não precisaríamos de campanhas para incentivar a diversidade na literatura, academia ou em qualquer outro lugar.

 

Ilustração original de John Tenniel para “The Adventures of Alice in Wonderland”, escrito por Lewis Carroll

Modelos

Os livros, no entanto, não são apenas sobre os “outros”. Quando vemos pessoas como nós mesmos na mídia e também na ficção, temos um vislumbre de quem poderemos nos tornar e nos sentimos validados. Podemos ter modelos e inspirações através da literatura.

Talvez como um possível efeito da conscientização das pessoas sobre a necessidade de modelos e representatividade — seja em pessoas ou na literatura — uma jovem negra, Marley Dias, iniciou uma campanha para encontrar mil “livros de garotas negras”. Dias recomenda obras como Brown Girl Dreaming de Jacqueline Woodson, One Crazy Summer de Rita Williams-Garcia, Chains de Laurie Halse Anderson e I Love My Hair de Natasha Anastasia Tarpley.

Mas me pergunto quantos desses “livros de garotas negras” apresentam as próprias garotas negras em papéis de importância, trabalhando como professoras, doutoras ou até mesmo presidentes de uma nação. Suspeito que a porcentagem seja decepcionantemente baixa.

Ilustração original de Beatrix Potter para “Peter Rabbit”

Apenas apresentar as minorias não é o suficiente para criar uma literatura diversificada de qualidade. E apesar de existirem alguns sites úteis que recomendam livros infantis mais diversos e criam até mesmo prêmios literários dedicados à promoção dessas obras, muito ainda precisa ser feito.

Juntamente com o aumento das preocupações atuais a respeito de imigrantes, refugiados e diversidade em geral, há também o fato de que algumas sociedades parecem caminhar em direção a um falso senso de nostalgia sobre um tempo em que o mundo era controlado por brancos.

Uma vez que não é assim que o mundo é ou deveria ser, é nosso dever mostrar aos jovens leitores a realidade nos livros que estão lendo. Assim, talvez, a próxima geração fique menos assustada com o “outro” se conhecê-lo e aprender sobre ele desde a infância.

 

BJ Epstein é docente sênior em Literatura e Engajamento Público pela Universidade de East Anglia. Leia o artigo original no The Conversation. Os artigos do The Conversation estão sob licença Creative Commons e podem ser reproduzidos livremente.

Tradução de Daniela Toledo.